A construção da Justiça somente será efetiva, quando apontar um caminho que leve à paz. E esse caminho somente será possível, quando o homem compreender que vive em unidade com todas as coisas. Foi com estas palavras que a Presidente do Tribunal de Justiça de Sergipe, Desembargadora Célia Pinheiro, presidiu na noite de ontem, dia 01, a abertura do evento Não-Violência! Novos olhares frente à indiferença, promovido pela ONG Grande Síntese - Instituto Cultural para Florescimento do Homem.
Realizado no Auditório José Rollemberg Leite, no Palácio da Justiça, o evento contou ainda com a participação do Desembargador Edson Ulisses de Melo que proferiu a palestra Nós devemos ser a transformação que queremos ver no mundo e com os debatedores Maria Conceição Rollemberg Figueiredo, Diretora do NAIA (Núcleo de Apoio à Infância e à Adolescência); Vânia Ferreira de Barros, Juíza da 17ª Vara Cível, 2ª Curadoria da Infância e da Adolescência; Evaldo Campos, Jurista e Assessor do Tribunal de Justiça de Sergipe e Sônia Maria Azevedo Prudente, Conselheira da Grande Síntese.
Enfatizando uma visão de maior importância por parte do ser humano sobre o tema, o Desembargador Edson Ulisses falou em sua palestra sobre as diversas formas de amor mútuo, colocando exemplos de luminares como Mahatma Ghandi; Sócrates; Martin Luther King e outros que com suas vidas dedicadas ao culto da não-violência deixaram grande legado para a humanidade. Como tantos já fizeram e tentaram mudar este quadro no mundo, acredito que o combate à violência deve partir da própria pessoa. Não adianta transformar o sistema sem mudar o homem, disse ele.
Retirando o suporte da máxima Faça o que digo, mas não faça o que faço, o Desembargador declarou que o momento atual pede uma maior reflexão sobre o amor e o respeito ao próximo, grandes aliados dessa luta.
Outro membro do TJ sergipano que prestigiou o evento foi o Desembargador Netônio Bezerra, que elogiou a iniciativa da ONG e o apoio do Poder Judiciário ao tema em questão. De acordo com ele, a violência ainda é um dos maiores problemas vividos até hoje, motivo que reforça o fato de que a não-violência deve passar a ser uma prática diária e uma reflexão precisa para a humanização das pessoas.
Sobre o papel do TJ nessa luta, ele disse que o Poder Judiciário com sua visão ampla, é um Poder que está envolvido com uma proposta nova, mais humanizada, utilizando-se do Direito como solução de problemas e absorvendo a perspectiva de um mundo de amor. Há um processo de mecanicismo em todo o mundo que impede o ser humano de ser mais solidário e mais humano. Sendo assim, sentenciando a cultura, o homem sentencia a espiritualidade, ressaltou o Desembargador Netônio.
Novo olhar sobre a Violência
Uma caminhada marcará o dia de hoje, comemorado mundialmente como o Dia Internacional da Não-Violência. Com concentração marcada para as 16h30 no Mirante da 13 de Julho e continuidade até o Parque da Sementeira, o movimento organizado pela ONG Grande Síntese pretende lançar um novo olhar sobre a violência no mundo atual. Na abertura do evento de ontem à noite, a Conselheira da instituição, Sônia Maria Azevedo Prudente, disse que este será um marco nesta luta que vem sendo desencadeada há mais de 15 anos pela ONG.
Conforme explicou a Conselheira, o objetivo desta luta é mostrar à sociedade as alternativas de combate à violência em todas as suas dimensões, além de divulgar o papel de cada um, do Estado e de demais órgãos envolvidos, relevando sempre o fato de que todos os seres viventes integram um sistema único de vida em todo o universo.
A luta contra a violência é diária e nosso papel é envolver qualquer ser humano nesse mesmo objetivo. É inadmissível que a humanidade cruze os braços e continue cultuando e até alimentando a falta de amor ao próximo, disse Sônia.
O evento que contou ainda com apresentação do filme Do lodo ao lótus, mostrou aos seus participantes as diversas formas de combate à violência através de uma peça teatral e testemunho de três jovens recuperados pela ONG. Advogados, jornalistas e sociedade em geral compareceram para prestigiar a iniciativa.
Veja a seguir, na íntegra, o discurso da Presidente do Tribunal de Justiça do Estado, Desembargadora Célia Pinheiro, quando da abertura do evento:
A construção da Justiça somente será efetiva, quando apontar um caminho que leve à paz. E esse caminho somente será possível, quando o homem compreender que vive em unidade com todas as coisas. Quando entender que é um elo solidário dessa teia de areia cósmica, onde o menor dos eventos estará sempre ligado a tudo que ocorre, desde o simples desabrochar de uma flor, às mais espetaculares explosões cósmicas.
Mas, para que esse caminho se transforme em realidade, será necessário que a humanidade compreenda que ele somente é um bom caminho, quando tiver um coração. É nessa usina de afeto o coração que se caldeiam sentimentos que nos permitem a superação das diferenças, revelando-nos que somos rebentos do mesmo galho, raios do mesmo sol, orvalho das mesmas madrugadas.
Não há caminho sem amor e não há amor sem coração. Sem que aliemos razão e sentimento, corremos o risco de sermos frios e intolerantes ou fanáticos irracionais.
A razão que é imprescindível, quando desgarrada dos sentimentos, pode nos levar à intolerância e à guerra; quando, entretanto, se encontra aliada ao coração, transforma-se em usina de solidariedade, arquitetando a moldagem de um mundo novo, onde a paz seja o objetivo de todos.
Crente em um novo paradigma, onde o amor seja o grande antídoto contra o espraiar-se deste mundo, sempre dividido por preconceitos de toda ordem, sacudido pelas guerras, amortalhado pelo fantasma da fome e ensandecido pela insensata busca dos valores materiais, saúdo os participantes deste conclave, como apóstolos de um novo tempo, sacerdotes da paz, mensageiros da esperança, acendendo, nesta noite, a pira onde será deflagrada a olimpíada do amor.
Socorro-me das palavras de Mahatma Ghandi para associar-me ao sonho dos que fazem esse movimento: Não quero minha casa murada de todos os lados nem janelas fechadas. Quero que a cultura de todas as nações sopre por toda minha casa o mais livremente possível. Mas nego-me a ser carregado por qualquer delas.
Quero liberdade para pensar e para agir. Quero responsabilidade no ser livre, crendo no que me sensibilizar a alma e defendendo com todas as forças o direito a todas as crenças.
Quero participar da construção de um mundo onde a solidariedade seja a regra. Um mundo que proclame com o Mahatma Ghandi: O mais atroz das coisas más das pessoas más, é o silêncio das pessoas boas. Um mundo de atitudes positivas e direcionadas para a celebração do amor.