Caminhante da planície, onde bebi preciosas lições nos livros do cotidiano, chego ao topo da colina, quedando-me na contemplação do desfile de nuvens multicoloridas de recordações. E, como o poeta Tagore, percebo que uma poeira de lembranças agora se ergue dos cômodos de minha memória. E elas me contam a teimosa história da menina que sonhou participar da construção de uma sociedade mais justa, pacificada pela determinação, solidariedade e amor de todos os homens. E, no desfile cadenciado do passado, vejo, no palco da vida, o caminhar da existência, com seus sonhos, suas dores, seus temores, esperanças e encantos, formando admirável mescla de sentimentos que me revelam a argamassa que serviu para temperar-me o caráter. Chego aquecida pelo sol que ilumina as manhãs e orvalhada pelas chuvas do inverno que enregelam. E, transitando entre brumas e luz, proclamo nesta travessia: - tudo são bênçãos da vida, desde o sorriso que revela a alegria que explode na alma, até as lágrimas que exprimem a dor de momentos de angústia.
Recordo as primeiras comarcas onde sentenciei, ouvindo o canto dolente do velho Chico que se espreguiçava em seu leito de dor. Canto que expressava o gemido do camponês cravejado pelos espinhos de injustiças seculares. Canto que despencava dos céus, rasgado pelas unhas luminosas dos relâmpagos, retratando a alma dilacerada das massas desafortunadas. E, no protesto que só as almas sensíveis percebiam, pude ouvir o canto do renascer das esperanças que pareciam mortas, na explosão do verde que sucedia o cair das primeiras chuvas.
Chego cantando louvores ao Autor da vida, homenageada no verso do imortal Gonzaguinha que repete em êxtase: é bonita, é bonita e é bonita! Chego com a convicção inabalável de que somos todos, qualquer que seja nossa posição no universo, elos dessa teia de eventos que é o cosmos, onde a simples folha de relva senta no mesmo tapete, ao lado da luz do sol e das estrelas da meia noite.
Minhas Senhoras e meus Senhores,
Aceito a convocação para assumir o comando do Judiciário de minha terra. E o faço com a humildade de quem sabe que somente se faz melhor aquilo que se ama, buscando amar cada vez mais tudo aquilo que se tiver de fazer. E, recebendo o batismo das águas lustrais desta investidura, proclamo a alegria de continuar a tarefa exitosa, conduzida, com grande brilho, pelo Desembargador José Artêmio Barreto, cuja administração, rica em realizações, torna-se modelo para aqueles que o sucederem. E, no propósito de seguir-lhe as pegadas luminosas, busco inspiração e força em seu exemplo e no de seus predecessores que, juntos, escreveram as mais belas páginas da história do Judiciário de Sergipe.
Minhas Senhoras, meus Senhores,
Inclino-me reverente aos que contribuíram de todas as formas para a minha caminhada, rogando-lhes que me indulgenciem pelas fraquezas, testemunho eloqüente de minha humanidade, e me façam enxergar a realidade do mundo tão bem retratada no verso de Tagore: Há tanta treva no lar e tanta dor no coração do homem que acendo a minha lâmpada e derramo luz no caminho para os viajeiros do remorso.
E o faço, comprometendo-me, inicialmente, com uma administração voltada para as nossas crianças e adolescentes que, em face das circunstâncias adversas experimentadas, assistem seus sonhos serem transformados em pesadelo. Para eles haverá um programa especial, melhorando a qualidade dos serviços das Varas com atuação nessa área tão sensível, que já informatizadas serão virtualizadas, aderindo ao sistema nacional de informação, enquanto uma equipe qualificada dispensará o atendimento necessário à reinserção social de nossos jovens em situação de risco ou já mergulhados nas veredas infracionais.
Na exigüidade do tempo e pequenez dos recursos, é compromisso desta Presidência a inclusão das principais comarcas do interior ao acesso à internet, aberta e livre às partes e advogados, enquanto se promoverá também a virtualização dos Juizados Especiais Criminais, a exemplo do que já foi feito na esfera cível.
Promover-se-á, ainda, a interligação dos fóruns da Grande Aracaju por meio de fibra ótica, reforçando-a com projeto de redes via rádio de alta disponibilidade. Com essas medidas, além da velocidade da comunicação, estaremos viabilizando a convergência digital, transmitindo, no mesmo meio físico, dados, voz e imagem com alta resolução.
A prestação jurisdicional é atividade que exige muito mais que bons juízes. Requer, para que flua eficientemente, estrutura física adequada e corpo auxiliar preparado e comprometido com o seu exercício.
Para assegurar esse propósito será estabelecida política de pessoal que assegure a valorização do servidor, sustentada em diálogo permanente, aberto e livre. Ao lado de uma política salarial justa e dentro dos limites legalmente estabelecidos, será ampliada a atuação da Escola da Administração Judiciária que formará profissionais qualificados para o pleno exercício funcional.
Consciente de que o jurisdicere vai além da atividade exclusiva do Magistrado, reconheço a necessidade de um relacionamento harmônico, respeitoso e independente com os advogados, públicos e privados, e com o Ministério Público, pilar indispensável na realização do justo. De igual modo, faço profissão de fé num trabalho de mãos dadas com os Poderes Executivo e o Legislativo, porque a realização do bem comum e a garantia da paz social dependem da conjugação dos esforços de todos.
Permito-me, neste momento, formular um apelo sincero ao eminente Governador do Estado, Dr. Marcelo Déda, e ao ilustre Prefeito da Capital, Dr. Edvaldo Nogueira, para que nos associemos e, em regime de autêntico mutirão, direcionemos conjuntamente nossos esforços para redimir nossos jovens em situação de risco ou já mergulhados no lodaçal das infrações penais. A história de Vossas Excelências revela que ambos conduziram suas vidas sob o bater cadenciado dos remos do sacrifício, assumindo, com empenho e zelo, a defesa dos humildes e pequeninos. E isso me faz convencida de que a semente lançada, estará aconchegada ao terreno fértil de corações sensíveis e compromissados com a redenção de nossos menores.
Diante do peso da responsabilidade de conduzir os destinos do Judiciário sergipano, suplico, com sincera humildade, o apoio de meus Ilustres Pares, cuja dedicação e competência lhes ornam a judicatura, para que me socorram com a solidariedade de seus conselhos e a grandeza de sua ajuda, em verdadeira administração compartilhada.
Que Deus, luzeiro derramado na estrada de minhas dores, de meus amores, de meus cantos e desencantos, acorde-me todos os dias, fazendo-me sentir na face o sopro da brisa que me traz o perfume de jardins longínquos, recordando-me que o mais agradável dos aromas é o que nasce das flores dalma. E assim me faça, mais e mais, colher braçadas de felicidade, vestidas na roupagem do dever cumprido.
Eminentes Pares, ao inclinar-me reverente aceitando a convocação para servir, tomo por lema a declaração de Victor Hugo: Não há senão um poder: a consciência a serviço da justiça; e não há senão uma glória: o gênio a serviço da verdade.
Atenta a esse compromisso, velarei para que minhas decisões, administrativas ou judiciais, sejam como regatos, desembocando sempre no oceano do justo, plenificadas por realizarem o apostolado da verdade.
Ao agradecer as palavras amáveis e generosas daqueles que me endereçaram uma saudação, Dra. Maria Cristina da Gama e Silva Foz Mendonça, Procuradora-Geral de Justiça, Dr. Marcelo Augusto Costa Campos, Presidente da Associação dos Magistrados de Sergipe, e Dr. Henry Clay Silva Andrade, Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil Seccional de Sergipe, afianço-lhes que elas soarão para mim como um convite ao trabalho, a ser desenvolvido como sonata de amor, frutificando em benefícios para a comunidade.
Ainda, gostaria de manifestar um agradecimento especial a todos os Juízes de Direito, Promotores de Justiça, Defensores Públicos, Advogados, Procuradores de Estado, Serventuários de Justiça, a quem rendo minhas homenagens.
Agradeço aos céus pela presença constante de meu marido Hermelino, meus filhos Marcelo, Patrícia e Fábio, netos Gabriel, Felipe, Danielle e Gabriela, que vai nascer, em cujos corações bebo do bálsamo que fortalece a alma, preparando-a para suplantar os desafios do existir. Com o amor que me dispensaram, os obstáculos foram pulverizados e caminhei sempre na contemplação do verde da planície.
Agradeço ainda aos meus irmãos, genro, noras e amigos, em especial Renê e Aparecida Conquad, que vieram da França para prestigiar esta solenidade.
Aos meus pais, Carlos e Alayde, que me permitiram, pelo amor mágico que os uniu, abrir meus olhos na aurora da vida, sempre envolvida pela ternura de ambos e que me ensinaram as mais preciosas lições, o beijo agradecido de quem os sente bem aqui, aquecendo-me o coração com a chama do amor que acalmisa, enternece e robustece a alma.
A todos, muito obrigada, pedindo a Deus que me ilumine.
Desembargadora Célia Pinheiro
Presidente do Tribunal de Justiça de Sergipe




