‘Xocó ontem e hoje: saberes ancestrais e de resistência’ foi o tema da segunda edição do Projeto Quinta Juriscultural, realizado na tarde desta quinta-feira, 26/08, no Memorial do Judiciário. Com curadoria da Dra. Maria do Carmo Déda Chagas e Sayonara Viana, Diretora do Memorial, o projeto contemplou exposição da cerâmica Xocó, esculturas, objetos etnográficos, fotografias, lançamento de livro, palestra, exibição de vídeo e apresentação de índios Xocós.
“Desta feita, homenageamos os índios, especificamente os Xocós, a quem eu guardo uma ancestralidade. Escolhemos este mês porque a ONU consagrou o 9 de agosto como o Dia Internacional dos Povos Indígenas. Então, nada mais apropriado que comemorarmos essa data com os Xocós. Temos na nossa gestão uma preocupação com a cultura, cidadania e aproximação com a sociedade. Por isso, a homenagem aos pioneiros desse país, aos verdadeiros donos dessa terra”, destacou o Desembargador Edson Ulisses de Melo, Presidente do Poder Judiciário de Sergipe.
Para o Cacique Bá, representante do Povo Xocó, ser homenageado pelo Judiciário é motivo de orgulho. “Isso só vem enriquecer o momento que estamos vivendo agora. Estamos sendo esquecidos, principalmente após a pandemia. Com esse evento, estamos sendo vistos”, agradeceu o Cacique. Os Xocós ocuparam a Caiçara e a Ilha de São Pedro, no município de Porto da Folha, a partir do século XIX. A aldeia é aberta à visitação mediante agendamento, através do telefone (79) 99807-4736.
Conforme Sayonara Viana, o Memorial tem como objetivo abrigar a cultura e arte de Sergipe. “E a arte indígena é bastante significativa no nosso Estado”, apontou. Sobre a cerâmica Xocó, a curadora Maria do Carmo Déda Chagas de Melo disse que se destaca o ofício das louceiras Damiana, Dadinha, Creuza e Maria Célia. “Atualmente, só produzem por encomenda e o desestímulo pela produção está se instalando. As artesãs apontam como fatores a ausência de jovens para ajudá-las a dar continuidade ao ofício e a escassez de compradores”, salientou Maria do Carmo.
O artesão Zacarias, descendente de Xocós, aprendeu a fazer esculturas em madeira com o pai, Zé do Chalé. “Eu não sabia que era artesão, mas estava no DNA. Eu me descobri artesão porque houve a necessidade de recuperar as peças que meu pai quebrava, já muito idoso. Trabalho só com madeira, com peças que representam a fauna brasileira, os astros e até mesmo a cultura chinesa. Meu trabalho é abstrato, vou fazendo o que vem na mente”, comentou Zacarias.
Na ocasião, também foi lançado o livro ‘O Espadachim do Sertão: os segredos de ouricuri’, escrito por Suênio Walttemberg. “Esse livro é inspirado em um personagem sergipano muito peculiar que esteve em terras porto folhenses no começo do século XIX. Esse personagem é Manoel Dias de Pinna, que era um espadachim”, informou o autor. A obra atual foi inspirada no livro ‘Facilimo Methodo, theorico e pratico do verdadeiro jogo da espada’, publicado em São Luís do Maranhão, em 1842.
As fotos expostas foram produzidas por Nailson Moura e Raphael Faria. “Temos aqui fotos de cerâmicas, da arte e dança dos índios Xocós. Para mim é uma grande felicidade apresentar esse trabalho porque propicia a todos um conhecimento maior da cultura deles, que também é nossa, já que são nossos ancestrais”, comentou Raphael Faria, que é fotógrafo da Diretoria de Comunicação do TJSE. Ainda houve exibição de vídeo sobre o cotidiano Xocó, com trilha musical de Neu Fontes, e poesia de Anízio Apolônio Lima Xocó.
Palestra
‘Breve Histórico de Lutas Socioambientais do Povo Xocó de Sergipe’ foi o tema da palestra ministrada pela professora Michele Amorim Becker. Morando no Canadá, ela gravou um vídeo, que foi exibido no rés do Memorial. “É extremamente importante essa homenagem que o Tribunal de Justiça faz ao Povo Xocó, sobretudo nessa semana de mobilização dos povos indígenas, em Brasília”, considerou a professora que, em sua palestra, falou sobre a luta da comunidade indígena pelo acesso à saúde e por um meio ambiente saudável.
“Nesse sentido, falo sobre os problemas relacionados ao rio São Francisco, o assoreamento e poluição das suas águas. Enfim, uma série de lutas que o povo Xocó enfrentou ao longo da história, desde o processo de colonização à retomada de suas terras”, destacou Michele, que é autora de dois livros sobre o tema. Um deles é ‘Opará ameaçado’, de 2019, resultado do pós-doutorado do Programa de Comunicação da UFS; e outro ‘O homem e o rio’, um fotolivro em francês-português. Ambos estão disponíveis para download clicando aqui.




