Quem gosta de viajar no tempo não pode perder a exposição ‘Nossa história está aqui: democracia, verdade e memória’, aberta pelo Arquivo Judiciário ontem, 19/10, no shopping Riomar, em Aracaju. Diversos documentos antigos – como uma carta de alforria de um escravo, de 1704, e também informações sobre processos do período da ditadura militar – estão expostos até este sábado, 21/10, no primeiro piso do Riomar, próximo ao CEAC. A exposição faz parte das comemorações dos 33 anos do Arquivo Judiciário.
“É uma forma de trazermos, principalmente para as gerações mais novas, uma parte importante da nossa história. A ditadura foi um momento sofrido para os brasileiros e esperamos que nunca mais aconteça, pois temos que viver sempre sob a democracia e exercitando a política. E resgatando a história, podemos contribuir para que a democracia se consolide ainda mais”, destacou o Desembargador Cezário Siqueira Neto, Presidente do Tribunal de Justiça de Sergipe.
Entre os documentos expostos, está a doação de uma escrava, datada de 1870; a ação possessória referente à construção do Mercado Thales Ferraz, de 1949; e até mesmo um furto ocorrido em 1942, quando navios foram torpedeados por alemães no litoral de Aracaju. A apelação criminal relata que um homem furtou dois anéis de brilhantes e uma aliança do cadáver de uma passageira vitimada pelo torpedeamento provocado pela 2ª Guerra Mundial. Todas as informações presentes na exposição podem ser pesquisadas no site do Arquivo, clicando aqui.
Segundo a diretora do Arquivo Judiciário, Mara Vieira, o objetivo da exposição é ampliar o conhecimento sobre os processos históricos existentes no Arquivo. “Trouxemos temas como ditadura, 2ª Guerra Mundial, Independência do Brasil e nosso Estado fez parte de todos esses eventos. Tudo está guardado em processos do Arquivo, que estão prontos para serem pesquisados. A exposição foi ampliada com a tecnologia QR Code, que leva os visitantes para o site do Arquivo, onde mais informações podem ser acessadas”, explicou Mara, referindo-se a um aplicativo de celular que é utilizado para o acesso rápido a conteúdos da internet.
O Arquivo Judiciário levou para a exposição materiais que são utilizados para restauração de documentos antigos, como polpa de celulose, papel japonês e goma arábica. Os visitantes também puderam levar como lembrança um cartão da exposição, assinando o próprio nome com uma caneta de pena. Para Pedro Miguel Matos, de 7 anos, foi uma novidade. “Pessoalmente nunca tinha visto essa caneta, só no meu livro de História”, disse Pedro, acrescentando que já estudou sobre a escravidão, mas nunca tinha visto documentos.
A professora de História Maria Cristina Santos, que é de Pernambuco e está a passeio em Aracaju, sentiu-se atraída pela exposição. “O que chamou minha atenção foram as informações sobre a repressão, as mulheres que estavam lutando pelos direitos humanos. Essa democracia que vivemos hoje foi graças a muitas pessoas massacradas e torturadas, que deixaram um legado para que pudéssemos continuar com a luta. São através dessas fontes escritas que temos a comprovação de tudo que aconteceu”, enfatizou.
Ditadura
Em parceria com a Comissão Estadual da Verdade, outro destaque da exposição é o subtema ‘Memória, Verdade e Repressão em Sergipe nos anos 50’, trazendo documentos do acervo do Arquivo Judiciário que foram apreendidos como prova no curso de inquéritos policiais instaurados para identificar pessoas vinculadas ao Partido Comunista. Na época, mais de 100 pessoas foram denunciadas, sendo muitas delas presas e torturadas mediante acusação de integrarem o partido ou simplesmente prestarem algum tipo de ajuda.
Uma das pessoas perseguidas foi Antônio Bitencourt. A exposição mostra o mandado de prisão preventiva dele, datado de 17 de outubro de 1952. “Ele sempre contou para gente as perseguições que sofreu. Ele lutava pela igualdade entre as pessoas e foi perseguido por pensar diferente do regime militar. Ele é um exemplo a seguir, lutando sempre pela liberdade das pessoas”, comentou Rafael Bitencourt, filho de Antônio.
Conforme Elito Vasconcelos, assessor especial da Comissão Estadual da Verdade, a exposição foi possível a partir de um termo de parceria com o Tribunal de Justiça. “O Tribunal disponibilizou todo o acervo do Arquivo para que pudéssemos pesquisar processos da época da repressão até 1985, com a redemocratização do país. Nesses processos há depoimentos de presos, pessoas que foram processadas por serem consideradas subversivas”, informou.




