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Quarta, 09 Janeiro 2002 14:16

O exemplo do Poder Judiciário

O Poder Judiciário destoou, mas não desafinou. Num cenário de total impunidade aos crimes de colarinho branco que ocorrem em Sergipe, o Poder Judiciário destoou dos outros poderes estaduais, principalmente do Executivo, quando decidiu corajosamente, com decência e até discrição punir com os rigores da lei um dos seus funcionários graduados, o diretor de Contabilidade, que em seis meses lesou o erário público em R$ 700 mil, valor que deveria servir para recolher ao INSS as gratificações pagas pelo Tribunal de Justiça. O lotérico montante mensal de R$ 108 mil ia parar na conta pessoal do neófito ladrão, numa agência do Banese , e rapidamente o alçaram a um padrão de vida milionário. Com o dinheiro ilícito, ostentou cartões e fazendas de gado, uma ousadia que o seu parco salário de R$ 1,6 mil jamais poderia proporcionar.

Tão simplório, talvez por confiança de que neste Estado sempre se sai impune, o fraudador agiu primariamente, sem a preocupação de apagar os vestígios que o denunciariam mais cedo ou mais tarde. E foi mais cedo do que previu, certamente. O trabalho dos investigadores das polícias e do próprio Tribunal de Justiça foi facilitado e logo se prendeu o acusado. O Poder Judiciário, que tem à frente o sóbrio e austero desembargador Antônio Goes, agiu rápido e com absoluta discrição - a imprensa só tomou conhecimento do caso após a prisão do acusado -, sem apadrinhamento ou corporativismo, mas imbuído do dever de fazer a justiça prevalecer, posição só possível e permitida a quem não tem "rabo preso".

O bom exemplo chega num momento em que o Estado vem sendo açoitado - ainda! - por escândalos que apontam para desmandos e desvios de dinheiro público. Mas ao contrário da postura íntegra do Judiciário, o Estado não faz questão de apurar as denúncias, de punir os culpados, de proteger os recursos dos contribuintes dos abutres que só querem se locupletar. Pelo contrário : sai em defesa dos seus afetos, tenta desmoralizar os acusadores, desqualifica as denúncias e procura obstruir as investigações, atrapalhando até o trabalho do judiciário. É o contraponto da boa conduta que deve pautar a vida dos homens públicos.

A atitude do Tribunal de Justiça de impor a lei e a justiça num caso que mexe com as próprias entranhas é meritória e deve repercutir positivamente junto à sociedade, que anda saturada de testemunhas tanta impunidade, desgaste que até já redundou em descrença na instituição. Essa postura firme e decente poderá ter um efeito redentor e servir para reconquistar a confiança da população em pelo menos um dos poderes constituídos, desde que essa conduta acompanhe todos os que fazem o Poder Judiciário, sempre.